sábado, 12 de maio de 2012

Anúncio Inquieto

Desaguando em repletos silêncios, dividindo meus pés em direções complexas, etéreas e repousantes. Um circulo muito absoluto, muito frágil - vastas comédias: ausências incompreensíveis. O rasteiro brilho das tuas mãos (como um cometa. Como o nada. como o vazio).
Uma minúscula fagulha da tua falta.
Preenchido de desordens e saudades, guiado por insetos superiores, seguirei e estarei mais perto do mar. Um riso ridículo no corpo, além das tuas marcas. Carrego a maldade e a violência desse mundo em sacolas roxas. 

E só assim poderei engordar meu nome com todas as letras quando assinar um documento.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Hoje

Hoje anuncia plena celebração: saiu o tempo de escutar canções alegres e fazer-se triste. Se há surpreendentes inteligências e genialidades na melancolia seguramente encontro tolerância e paz nas alegrias.


M.M.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

DE CAETANO A PSDB: lucidez política para a massificação da greve

Entre ontem e hoje, o Comando de Greve e o fórum virtual da pós-graduação debateram o apoio externo de instituições e personalidades. Brevemente (aos que não estão a par), o último Comando de Greve (28.jan.2012) se deparou com questões como: receber ou não o apoio financeiro de partidos políticos e, diante disso, aprovou (não sem oposições) o recebimento de apoio financeiro.


No entanto, em seguida, votou contra o recebimento de qualquer apoio de partidos "da direita". Após isso, aprovou (novamente, não sem oposições) que a Comissão de Cultura se focasse na vinda de Caetano Veloso para o show da Calourada, como uma maneira de arrecadar fundos suficientes para todas as tarefas que impõem à greve.

(Espero não ter passado informações erradas. Caso haja alguma, por favor, me corrijam.)

No fórum da pós-graduação, teve início outra discussão onde alguns se posicionaram, por sua vez, contra a participação de Caetano Veloso, argumentando que sua postura político-ideológica é – para dizer o mínimo, porque os argumentos são vários – "problemática".

Como acho que essa discussão, apesar de "abstrata" (porque, por exemplo, sequer temos ainda o dinheiro suficiente para trazer alguém como o Caetano), pode por outro lado "respingar" infinitamente toda vez que surgir um apoio externo – tirando inclusive o tempo precioso de fóruns deliberativos presenciais (motivo pelo qual não levei adiante essa discussão no Comando de Greve) –, achei mais apropriado fazer uma defesa aqui.

Esse texto é sobre "critério".

A nossa posição político-ideológica! "Nossa"?

Se, como critério para apoiar o movimento, utilizaremos o critério ideológico (como querem alguns), devemos portanto ser coerentes com todas as suas implicações. Baseado nos últimos argumentos, no Comando e no fórum da pós, quase todos sustentados principalmente entre a "direita" e a "esquerda", a primeira pergunta que faço é: onde está a "esquerda" e como reconhecê-la? Me parece uma pergunta coerente, dadas as preocupações.

Programaticamente, só aceitaremos apoio de marxistas-leninistas, de trotskistas e luxemburguistas? Ou incluiremos os acólitos anarquistas, de Bakunin a Hakim Bay? Socialistas utópicos – se os há – entram ou não? No caso de apoio dos professores, foucaultianos são bem vindos? Aqueles, críticos do "estado exceção" a la Benjamin ou Agamben, podem entrar?

Talvez alguém observe que não é "produtivo" começar por aí. Que são todos de "esquerda". Quem sabe, então, tentar a política "na prática"?

Só aceitaremos quem votou no Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), nas últimas eleições presidenciais? Se a resposta é afirmativa, cabe perguntar: e no segundo turno? Quem votou na Dilma poderá participar, ou somente aqueles que votaram "nulo"?! E como ficam aqueles que ainda são do PT, porém de correntes minoritárias socialistas, como a Esquerda Marxista? Apesar de seu programa revolucionário (com o qual, estou seguro, grande parte "da esquerda" teria acordo), a Esquerda Marxista se mantém no PT por critérios de outra ordem, que não me compete aqui expor. Receberíamos este tipo de apoio? E do MST? Apoiamos e recebemos apoio do MST, ainda que o MST receba suporte de alas internas do PT? "Mas o PT não é mais 'esquerda'!", alguém diria.

Nos prendemos aqui em siglas e nomes (PSOL, PSTU, PT, Esquerda Marxista, Caetano Veloso, etc.). Minha pergunta é a seguinte: e dos ALUNOS da USP: aceitaremos apoio de quais deles? Se na Escola Politécnica não houver um só socialista – embora eu saiba que eles existem –, vamos deixar quatro, cinco mil alunos de fora? Porque, veja, não vamos "aliviar" para os partidos "de direita", mas vamos aliviar para os alunos da USP?!

Alguém protestará, com razão: "não é possível comparar o apoio de um aluno com o apoio de um partido como (digamos) o PSDB". É verdade, sobretudo porque o PSDB tem um programa de governo e uma história como instituição política no Brasil. Então, parece muito justo. Mas, e o Caetano? "Aliviamos" para os estudantes da Politécnica "de direita" que querem apoiar a greve e não "aliviamos" para o Caetano?

O que está em jogo, afinal?

Vejam, não se trata aqui de diluir (perigosamente) diferenças políticas entre a "direita" e a "esquerda", muito menos dizer que elas não existem. Trata-se, sim, de perceber DE ONDE estamos partindo. Qual é a "nossa" posição?, sabendo que esse "nossa" se refere à posição DO MOVIMENTO.

O critério ideológico é, sem dúvida, importante, mas, na minha opinião, dispõe-se ao mais obscuro labirinto se não temos claros qual é sua "base" e qual o seu "norte". Que cada um expresse aqui a sua posição política é válido (todos nós podemos expressar quais são as nossas crenças e, sendo coerentes, quais pensamos ser os melhores caminhos), mas, ao confundir as "nossas" posições com a posição "do movimento", caímos inevitavelmente numa armadilha e, o que é mais chato, num palavreiro sem fim.

Não por outro motivo, o Comando de Greve caiu na "aparente contradição" de rechaçar apoio de partidos de direita, mas aprovou a participação do Caetano. É claro que existe uma diferença enorme entre o PSDB e o Caetano Veloso. O Caetano não tem (ao menos não expressou até hoje) um programa político e econômico completo para o Brasil. Mas, a diferença de percepção entre um e outro está justamente na multiplicidade de tons político-ideológicos de que o movimento é composto.

Não receber o apoio financeiro (sublinho porque voltarei a isso) de um partido ou o show de um artista porque eles não são "socialistas", "de esquerda", "revolucionários", "anarquistas", significa dizer que o movimento DE MASSA que precisamos construir nesse momento dentro da universidade É ou DEVE SER "socialista" ou "anarquista" ou "revolucionário" ou "de esquerda" (com todas as suas dificuldades de definição), etc., posição que é – para quem sabe ler o nosso momento histórico – evidentemente problemática e, mais que isso, FALSA.

A questão é que, por mais que forças socialistas, anarquistas, revolucionárias, etc. de fato se movam no seu bojo, são todas expressões parciais de algo que o movimento, como um todo, hoje (e aqui me baseio nas grandes assembleias que tivemos), NÃO É. Ele é, a despeito das tendências setoriais de esquerda, ALGO DIFERENTE, que abraça todas essas posições no centro das suas reivindicações e, assim como as direciona para o seu sucesso, também direciona apoios externos variados: seja de um partido, de um movimento social de base ou de um artista.

Até aqui, apenas tentei sugerir como, atualmente, argumentos que usam como critério "de direita" e "de esquerda", apesar de válidos (existe, sim!, "direita" e "esquerda"), podem no entanto ser complicados, em longo prazo, para a massificação do movimento. A massificação, exigência elementar para o sucesso da nossa greve, deve ser buscada (como repetimos sempre) NOS EIXOS DO MOVIMENTO, expressão mais honesta e fiel das nossas possibilidades.

Está claro que qualquer (digamos outra vez) "socialista" se viu obrigado a "negociar" com os eixos dessa greve, visto que, nem de longe, ela é uma greve que ataca frontalmente o poder do neoliberalismo (as fundações, grande expressão disso, sequer integram os eixos; o "fora PM" não é pelo fim da PM em todo o mundo). Por outro lado, se há tantos socialistas (ao menos no movimento estudantil), é porque, de alguma maneira, eles (e aí me incluo) reconhecem corretamente que os eixos dessa greve significam um AVANÇO diante do que está aí. Ela é "progressista", no sentido lukácsiano (e não "positivista") do termo, ou seja, contra o conservadorismo.

O problema é que, por sua vez, Caetano Veloso o reconhece TAMBÉM, ainda que ele não seja "socialista", como muitos gostariam. É esse espaço – entre as correntes do movimento e o que é o movimento no todo; e entre o movimento e seus apoiadores externos – que precisamos ter claro na nossa leitura da realidade.

E aqui entro na segunda parte do meu argumento.

Ética burguesa X ética trabalhadora: a questão do dinheiro

Parto, então, direto para a minha posição, afirmando: devemos aceitar aportes financeiros diretos (de partidos ou correntes, por exemplo) e indiretos (como os advindos de um show do Caetano, por exemplo), independentemente da posição ideológica destes. Como argumento, acho produtivo começar pelo relato de duas situações análogas à "nossa".

Em março de 2011, a Cia. Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes foi galardoada, na Categoria Especial, pela 23ª edição do Prêmio Shell de Teatro. Sediada próximo à Estação Patriarca do metrô, na zona Leste, a Cia. Dolores (que, inclusive, apresentou-se na FAU, ao fim de 2011) recebeu a notícia do prêmio com surpresa, visto que, como um coletivo militante de esquerda, ligado a diversos movimentos sociais, acabara de ser contemplado, em última instância, por uma gigante petrolífera, baluarte do establishment mundial: "coisas do mundo pós-moderno", segundo alguns.

Pois bem, "quê fazer"?, diria Vladimir Lênin. O prêmio incluía um cheque de 8 mil reais que, para a situação financeiramente precária da companhia, seria muito bem vindo. O grupo se reuniu e, conjuntamente, decidiu que era importante receber aquele dinheiro. Para tanto, deixariam clara a sua posição político-ideológica diante da Shell. Na noite do evento, ao subir no palco para receber o cheque e um troféu, a Cia. Dolores leu uma carta em repúdio à política da empresa. Um trecho:

"Para nós do coletivo artístico Dolores é uma honra participar deste evento e ainda ser agraciado com uma premiação. Nosso corpo de artista explode numa proporção maior do que qualquer bomba jogada em crianças iraquianas. Nosso coração artista palpita com mais força do que qualquer golpe de estado patrocinado por empresas petroleiras. Nossa alegria é tão nossa que nenhum cartel será capaz de monopolizar (...) .Até o próximo bombardeio... quer dizer, até a próxima premiação!!!".

Enquanto a carta era lida por um dos atores, uma atriz jogava sobre ele óleo queimado, "como se fosse" petróleo. Em entrevista dada depois da cerimônia, o grupo declarou: "É um fato alarmante porque nós, os 'fazedores de teatro', não temos controle sobre a direção das políticas públicas, inclusive de cultura e uso do subsolo. A gente recebe o prêmio de cabeça erguida porque o dinheiro é de trabalhadores e cooptado e expropriado por essa empresa".

O outro relato é de um acontecimento bem recente: no dia 24 de janeiro de 2012, os diretores do filme "Trabalhar Cansa", Marco Dutra e Juliana Rojas, dirigiram-se ao Palácio dos Bandeirantes para receber o prêmio Governador do Estado para a Cultura (!) de melhor filme nacional de 2011. Após o recebimento do troféu e de um cheque de 60 mil reais, os diretores leram uma carta (muito divulgada) condenando veementemente a ação do governo do estado na desapropriação de Pinheirinho. “Vence mais uma vez a política do coturno em prol do capital”, disse Juliana. “E o governo do Estado lavou as mãos sobre o caso".

Não tenho dúvida de que, com uma postura política como essa, ambos também só se prontificaram a receber a premiação porque precisavam, DE FATO, dela: sobretudo de sua parte monetária, mais do que da simbólica.

O que está exposto nesses dois relatos exemplares, na minha opinião, é uma postura política (e estratégica) extremamente lúcida frente a questões que são as mesmas que se colocam ao nosso movimento. A Cia. Dolores e os diretores de "Trabalhar Cansa" perceberam que, para a sobrevivência das suas atividades e, portanto, da luta contra o "mais forte", É PRECISO ROMPER com uma ética que atrela o valor simbólico ao valor econômico. Premiados (e premidos) pela "burguesia", mas conscientes de que ela detêm o dinheiro, trabalhadores da cultura foram levados, na prática, a essa cisão: "recebemos de bom grado o seu dinheiro, mas rejeitamos o seu reconhecimento simbólico".

Isto é "inconsequente", politicamente? De maneira alguma!, penso eu.

Existe aí uma percepção CORRETA de que esta ética, que atrela o valor simbólico ao econômico, só pode mesmo ser uma ética burguesa, visto que somente a burguesia pode se dar ao luxo de abrir mão, numa situação como essas, do dinheiro, uma vez que suas fontes regulares estão garantidas. Seria um ERRO que o trabalhador, em posição completamente diversa, reproduzisse a mesma atitude.

Este é, a meu ver, o dilema idêntico que se apresenta, nessa altura do campeonato, ao movimento grevista da USP. E acho que devemos aprender com nossos companheiros da Cultura, para não perdermos oportunidades valiosas.

Se, por uma esquizofrenia política (ou nem tanta: lembrem-se dos eixos reais do movimento!), o PSDB decidir doar 10 mil reais para a greve, nossa postura deve ser COERENTE com a nossa situação igualmente precária financeiramente, e vinculada a uma ética que não pode reproduzir o padrão burguês, senão um novo, de trabalhadores ou estudantes que desejam combater o que está aí: dizemos um "não" ao reconhecimento ideológico, marcando a distância ideológica existente (como fizeram os companheiros da Cultura com a Shell e o governo do estado) e tomamos o dinheiro: não só porque ele será usado para fortalecer a luta CONTRA nossos opositores, mas também porque – como disse muito bem a Cia. Dolores – "o dinheiro é de trabalhadores e cooptado e expropriado". Nada mais justo, portanto, do que o recolocarmos A FAVOR de uma luta emancipatória!

Fazer isso, no fundo, é simplesmente desvelar o caráter apolítico do dinheiro: ele serve àquilo que é dado a servir. Ponto. Quem o cobre de fetiches e valores (inclusive místicos: "os escolhidos") é a própria burguesia.

O mesmo para o show do Caetano Veloso! É, a meu ver, inútil gastar o tempo do Comando de Greve ou de uma Assembleia Geral discutindo se as posições políticas do cantor são ou não compatíveis com as "nossas" posições, sobretudo pensando que esse "nossas" está expresso nos eixos da greve, e não em nossa consciência individual. O que, realmente, deve preocupar os nossos fóruns é:

como podemos instrumentalizar o espetáculo do Caetano Veloso em prol dos objetivos do movimento? Como podemos instrumentalizar todo o reconhecimento midiático de que goza Caetano para o avanço da luta? Isto, segundo vejo, atende pelo nome de "subversão": é subverter o que nos foi cedido, sem, no entanto, ceder política e ideologicamente.

O REAL problema político e ideológico é do Caetano, ou do PSDB (caso existisse um apoio financeiro) e NÃO, de maneira alguma, DO movimento grevista da USP. Este se mantém IRREDUTÍVEL nas suas pautas e eixos.

Qualquer coisa além disso – falar que "fulano é de direita", que "beltrano é liberal" – é dispor os esforços da esquerda do movimento universitário numa frente "fantasmagórica", visto que essa realidade política NÃO ESTÁ EXPRESSA nos eixos do movimento, e pode ser, inclusive, invertida nas suas relações de força numa assembleia ainda mais massiva que futuramente venhamos a construir: por exemplo, numa assembleia de, digamos, cinco mil pessoas, em que quatro mil são "a favor" do Caetano, três mil "não tem nada contra o PSDB", mas absolutamente TODOS desejam a queda do reitor, a saída da PM, o fim dos processos e assim por diante, eixo por eixo.

Portanto, se não tivermos bem claro qual é a "base" e qual é o "norte", corremos o risco de não apenas dispendermos nosso precioso tempo em debates vãos, como também, e SOBRETUDO, perder a oportunidade de usar a grande arma do inimigo a nosso favor, a saber: seu poder econômico. Aceitá-lo não é propriamente "aceitá-lo", mas antes cooptá-lo à nossa causa. Nossos eixos permanecem intactos e caminhamos, como devemos saber caminhar, para a massificação da luta e, somente assim, até a consecução dos nossos objetivos expressos.

Sem mais, por enquanto, mas até a vitória,

um abraço a todos,

Fábio Salem Daie

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

só pra brincar de estar vivo

Pra saber daquelas coisas que somem nos recônditos da casa e a gente encontra anos depois com o coração molhado de saudades.
Pra untar com as mãos as promessas que esquecemos de esquecer de não cumprir.
Pra calcular os ganhos, salvar as preces, perder e ganhar fé.
Pra quem desistiu de esperar, pra quem descobriu novos planos.

Só pra confundir um pouco os olhos, acabar com o calor nos pés, nas mãos, nos dias.
Só pra amenizar suores, celebrar cortinas, saborear brigadeiros.
Só pra aumentar o sentido, quebrar os tempos, saltar estradas.

De quem surgiu dentre a multidão, em meio aos confetes e as estátuas.
De quem já sabia das auras, da calma, dos dedos e da mística.

A que se servem doces sonhos de reinos imaginários?
Onde se encaixam as findas estórias dolorosamente lindas na infância?

A que destino se construiu a poesia escrita em forma de desenhos se qualquer um sabe que melhor que fazê-la é vivê-la? Mesmo sem nunca saber.

Mas um dia uma menina entrou a pedir-me que a banha-se com poesia. Então, temperei o dia com um poema pra comemorar as delícias de estar vivo.

Se não gostasse tanto de viver talvez amasse menos as palavras. Mas não tenho pressa. Ando gostando mais de amar os dias.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Polícia Militar no Campus: uma questão de educação (?).

A FEUSP é uma entidade estratégica no debate sobre o projeto de Universidade pública que queremos. @s estudantes da Faculdade de Educação devem ocupar seu espaço nas recentes discussões sobre a presença da Polícia Militar no Campus. A despeito do que tem sido vinculado na grande mídia, a intenção do movimento estudantil da USP não é manter uma posição privilegiada diante do policiamento na cidade de São Paulo em relação ao consumo de drogas, mas promover um amplo debate sobre segurança pública, educação de qualidade e papel da Universidade na sociedade. Queremos compor um movimento na Faculdade de Educação que seja aberto ao diálogo e afastado do aparelhamento partidário.

Nessa direção, trazemos o relato dos fatos ocorridos ontem, 08/11, envolvendo a prisão de estudantes e funcionários que ocupavam o prédio da reitoria. Sem o término das negociações, os policiais invadiram o local enquanto @s alun@s e funcionários dormiam.

Nessa terça-feira, 8 de novembro, presenciamos a desmedida força repressiva da Polícia Militar no Campus Capital da Universidade de São Paulo: em uma operação que contou com um efetivo de 400 homens, cavalaria, helicóptero Águia, carros especializados, apoio do GOE (Grupo de Operações Especiais) e GATE (Grupo de Ações Táticas e Especiais) assistimos a prisão de 73 estudantes e funcionários (dentre eles uma funcionária da FEUSP e uma diretora do CAPPF, que fazia parte da comissão de negociação e que não estava na ocupação no momento da reintegração de posse) acusados, inicialmente, de desobediência à ordem judicial (para desocupação), dano ao patrimônio público, dano ao patrimônio ecológico e formação de quadrilha. @s estudantes e funcionários ocupavam a reitoria desde o dia 2 de novembro e receberam um comunicado informando que a reintegração de posse seria realizada às 23h do dia 7 de novembro, segunda-feira.

Entretanto, às 5h do dia 8, a Polícia invadiu a reitoria ocupada e levou todos @s estudantes e funcionários em dois ônibus, separando-os entre homens e mulheres. Relatos de moradores do Conjunto Residencial da USP (CRUSP) revelam que durante a madrugada a operação da Polícia Militar já estava se articulando com helicópteros sobrevoando os blocos da moradia estudantil e reitoria ocupada. A tropa de choque teria bloqueado a saída dos prédios e feito o uso de gás lacrimogêneo para conter uma possível participação dos moradores durante a reintegração de posse. Vale ressaltar que não há qualquer ligação do CRUSP com a ocupação da reitoria e que a moradia estudantil é a residência d@s alun@s e suas famílias (há apartamentos especiais para estudantes com filhos).

Os estudantes chamaram, então, um ato para as 10h de ontem para reivindicar a soltura d@s alun@s e funcionários presos. A manifestação se concentrou na reitoria e seguiu para o 91º Distrito Policial onde estavam @s estudantes detidos. Cerca de 200 estudantes passaram a tarde em frente à delegacia acompanhando as negociações. A Polícia falava em R$1050,00 como fiança. As negociações seguiram com o apoio de advogados de partidos políticos e movimentos sociais e por fim terminaram na liberação d@s estudantes e funcionários mediante o pagamento de R$545,00 cada um totalizando o valor de R$39.240,00. Os alun@s e funcionários reclamam de uso da violência na tomada da reitoria com a utilização de algemas, cassetetes, arrombamento de portas e destruição de equipamentos. As mulheres que estavam na ocupação (24) falam de humilhação e violência desnecessária com relatos do uso de mordaça e algemas.

Dessa maneira, a reitoria busca criminalizar o movimento fechando-se ao debate: continua a perseguição política com os processos administrativos contra alun@s e funcionários. Ao fazer uso do discurso legalista (jurídico) a reitoria ganha adesão da mídia e do governo do Estado de São Paulo.

Ainda ontem, às 18h30min, no saguão de entrada do bloco B da FEUSP, realizou-se uma assembléia interna da Educação. Esta assembléia contou com cerca de 70 estudantes e apontou fortemente para a necessidade de uma unificação do movimento estudantil. Nela deliberou-se:

1. Paralisação das aulas que estavam em curso do período noturno, para que tod@s os estudantes pudessem participar da Assembléia Geral dos Estudantes da USP;

2. Paralisação hoje, 4ª feira (09/11), com convite para que @s estudantes participem das atividades de diálogo propostas;

3. Indicativo para que ocorresse o Fórum FEUSP – espaço para discussão e deliberação conjunta entre os três segmentos que compõe a nossa faculdade (funcionários, alunos e professores) – na 5ª feira, 10/11, às 16h. Havendo ainda a necessidade de discutir-se a proposta com os demais segmentos;

4. Criação de uma Comissão de Comunicação, responsável pelo registro e ampla divulgação, nos diversos meios de comunicação, dos eventos dos quais a FEUSP participar.

Terminada essa Assembléia de Curso e tendo passado nas classes para convidar @s estudantes em aula a juntarem-se à paralisação, @s alun@s deslocaram-se para o vão da História e Geografia onde estava ocorrendo uma Assembléia Geral dos Estudantes da USP.

Corroborando com o clima da Assembléia de Curso da FEUSP, a Assembléia Geral também apontava para uma maior unificação do movimento em torno daquilo que é fundamentalmente comum à imensa maioria dos presentes e que compõe o eixo político deliberado. Contando com cerca de 2.000 estudantes, esta assembléia deliberou:

1. Greve imediata dos estudantes da USP;

2. Eixos políticos da greve:

1. Retirada de todos os processos movidos contra estudantes e funcionári@s por motivos políticos!

2. Fora PM! Pelo fim do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública.

3. Liberdade aos presos e nenhuma punição administrativa ou criminal!

4. Fora Rodas (reitor João Grandino Rodas)!

5. Outro projeto de segurança na USP! Que a reitoria se responsabilize por:

1. Plano de iluminação no campus;

2. Política preventiva de segurança;

3. Abertura do campus à população para que tenhamos maior circulação de pessoas;

4. Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que tenha treinamento para prevenção dos problemas de segurança e com efetivo feminino para a segurança da mulher;

5. Mais circulares;

6. Circular até o Metrô Butantã.

3. Ato, nesta 5ª feira (10/11), às 14h, no Largo São Francisco. Com concentração às 12h;

4. Próxima Assembléia Geral dos Estudantes: 5ª feira (10/11), às 18h, no Largo São Francisco;

5. Formação de um Comando de Greve: formado por delegados eleitos nas Assembléias de Curso, sendo 1 delegado a cada 20 participantes da Assembléia (de Curso).

Levando em conta essas deliberações, @s estudantes da Educação que estavam presentes ao final da Assembléia Geral se reuniram para tirar propostas de ação na FEUSP. Decidiu-se, então, que é de suma importância uma mobilização d@s estudantes da faculdade para a construção da greve no curso de pedagogia e licenciaturas em concordância com aquilo que foi deliberado na Assembléia Geral.

Para tanto, ocorrerá uma nova passagem nas salas de aula para informar todos os estudantes do curso das deliberações realizadas ontem e para convidá-los a participar das atividades que serão propostas hoje:

- Às 15h haverá um roda de diálogo para discutir a segurança na USP e diferentes propostas para assegurá-la;

- Às 19h30min, haverá uma oficina wiki, para aqueles que quiserem aprender a utilizar as mídias de que o Centro Acadêmico Professor Paulo Freire (CAPPF) dispõe como o site, o twiter e o facebook da entidade pelo conjunto de estudantes da FEUSP.

Além disso, na mesma perspectiva de construir o movimento dentro da Faculdade de Educação, decidiu-se que na quinta-feira,11/11, às 18h, será realizada uma nova Assembléia de Curso para que todos sejam informados do que foi deliberado na Assembléia Geral e para que retiremos os delegados representantes da FEUSP no Comando de Greve. Para tanto, o indicativo para o Fórum FEUSP deve ser rearticulado, permanecendo sem uma nova definição de data, até que seja melhor discutido e construído em assembleia, para melhor articulação entre os três segmentos.

Tendo em vista o que se apresentou no presente informe, gostaríamos de convidá-l@s a unirem-se na participação de todas atividades propostas!

Estejam nos espaços dando sua opinião, participem das assembléias e dialoguem com os colegas.

Hoje, contamos com a presença de tod@s na roda de diálogo, que ocorrerá às 15h, no saguão do bloco B; e também na Oficina Wiki, que acontecerá às 19h30min, no mesmo local.

Vamos construir um movimento estudantil na Faculdade de Educação a partir de um diálogo aberto e de uma participação ampla!

Estudantes participantes da Assembléia da FEUSP em 8.11.11.


sábado, 5 de novembro de 2011

Polícia Militar no campus?

ENFIM, A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO NÃO SE DEMOCRATIZOU.
Em resposta ao texto publicado no blog da Professora Raquel Rolnik da FAU-USP no dia 4/11/2011:

"Se a entrada da PM no campus significa uma restrição à liberdade de pensamento, de comportamento, de organização e de ação política, nós não deveríamos discutir isso pro conjunto da cidade? Então na USP não pode, mas na cidade toda pode? Que PM é essa?"

Sim, a Polícia Militar significa em geral ALGUM constrangimento à liberdade e organização. Isso é histórico e consensual para quem já esteve diante de uma "batida" e já tomou uma "geral", mas não necessariamente para o ideário de ordem indispensável para as relações humanas porém nem sempre adequado a análises mais complexas. Judicialmente a PM pode entrar em qualquer lugar que representar um logradouro, portanto a circulação da polícia é e sempre foi permitida na USP.
Considerando a Universidade como o espaço reconhecido SOCIALMENTE como lugar de construção do conhecimento por excelência e sua importância histórica no fomento e disposição para manifestações da democracia e do espírito libertário. Considerando o acumulo histórico que prevê um "contrato moral" entre as Universidades e o Estado que prevê a ausência de agentes da polícia no espaço estudantil desde o fim do Regime Militar (lembrando que nossa transição democrática não foi plenamente realizada, ainda). Considerando a existência de bases da PM muito próximas ao campus, o que possibilitaria sua entrada a qualquer momento no caso da ocorrência de um crime, de fato. Considerando que a Polícia estava presente no campus quando do assassinato do Felipe (Economia-FEA) e que o atendimento do HU negligenciou por várias horas a morte do Samuel (Filosofia-FFLCH), um estudante negro, morador do CRUSP, usuário de drogas.
Considerando que a PM no campus pode não garantir a segurança, uma vez que esse problema é um fato da cidade na qual está inserido e demanda como a autora do texto revela uma "reorientação" do projeto arquitetônico da USP, inclusive com a adequação da luminotécnica e dos serviços à comunidade uspiana tais como circulares. Assumo que a PM permanecer no campus não é a política mais interessante para a universidade reconhecida como uma das mais importantes da América Latina.

Investir em uma guarda universitária capacitada é muito mais oneroso do que principiar um convênio com uma instância de poder já consolidada e pronta para mais uma ação como a Polícia Miliar.
Sabemos que a provável opinião da comunidade uspiana é partidária da presença da Polícia.

Um movimento estudantil, uma ocupação, fragmentada, dividida e marcada pelo descenso e "deslegitimidade" diante da posição geral da USP realmente não poderá estabelecer um diálogo a altura dos empoderados representantes do Estado, da reitoria e da mídia. Essas não são instâncias abstratas, são formadas por pessoas e essas pessoas estão defendendo um projeto de sociedade que pode não ser o que garanta os interesses de todos os segmentos da sociedade.
Obviamente não se pode afirmar categoricamente que o conjunto de indivíduos que compõem o Estado, a mídia, a reitoria, constituí uma posição una, isso seria ridículo. Mas perceber na atuação desse tipo de instância ou instituição uma tendência de ações observadas empiricamente através da história constitui um objeto de estudo, por exemplo, da Sociologia.

A formação do sujeito no nosso país remonta a agruras da colonialismo, da escravidão e do ideário "falso republicano". Não se pode dizer que há povo ou burguesia, propriamente, no Brasil. Estamos paradoxalmente submetidos ao HOMEM CORDIAL, este que sucumbe às relações de interesses e mina o liame entre os espaços público e privado como aparece em Raíses do Brasil de Sérgio Buarque de Hollanda. (O que necessariamente não significa um ponto negativo, mas pode sigficar, pelo contrário, um importante traço na formação de um ser humano capaz de realmente personificar um projeto de conciliação entre as diferenças).

Gostaria de ilustrar essa reflexão com algumas pequenas narrativas que constituem fatos cotidianos que eu ou amigos presenciaram, o que não significa uma generalização de tais acontecimentos nem as implicações decorrentes deles:

1 - Quero entrar na USP depois das 22h em um dia comum junto de um grupo de amigos que não são alunos da universidade. Se vou de ônibus (que posso pegar a cerca de 100 metros da portaria 1) ou de CARRO apresentando identificação estudantil poderei entrar tranquilamente. Se sigo de pés sou barrado pela guarda (cujo convênio prevê somente a proteção do patrimônio) pois meus amigos não são matriculados na universidade. Vale dizer que se você estiver bem arrumado e com um carro novo aumenta as chances de conseguir entrar mesmo não sendo aluno.

2 - Por mando da polícia militar (um PM escolta a ação de perto) um conjunto de garis derruba todos os produtos de um vendedor ambulante na porta do show de uma banda internacional no estádio do Morumbi. Os garis tomam os produtos para si e para o policial envolvido e o sujeito, o vendedor, simplesmente "se fudeu".

3 - A diretora de uma unidade da USP ao sair do prédio às 2h pede ao guarda que gentilmente a acompanhe até seu carro ao que recebe a seguinte resposta: "só posso vigiar o patrimônio".

O conjunto das leis na "filosofia do direito" se constitui pelas demandas da sociedade, ou o contrário, as leis é que determinam como a sociedade deve se comportar. Sabe-se que é provável que uma sociedade sem regras não possa existir sem a satisfação média geral de seus membros. Entretanto, o direito surge como a alternativa encontrada pelas classes dominantes no mundo antigo para legitimar a propriedade privada. Portanto, (não sejamos pudicos) a existência de uma lei não sugere seu cumprimento "a priori".
A filosofia e o pensamento livre está sobre as leis embora o comportamento dos indivíduos esteja sujeito às mesmas. E a sociedade civil poderá, sim, infringir as "regras" dessa tábua com legítimas ou ilegítimas motivações. E é justamente na desestruturação da ordem que um conjunto de cidadãos poderá reivindicar uma nova tábua refutando temporariamente os dispositivos estabelecidos. Portanto, a filosofia, o pensamento livre é supra normativo e dele deve partir qualquer debate para a apregoação de tábuas.
Pense: é justo uma escola de elite como o Dante captar legalmente 90 mil reais para uma feira de ciências e injusto um movimento como o MST ocupar terras improdutivas para distribuir (sem a concessão da propriedade) para famílias tirarem seu sustento?

A legalização da maconha e o ato desses estudantes terem sido abordados são apenas questões incipientes. Vamos então aplicar nosso direito tal como ele está previsto? Suspeito que, inclusive alguma parte do judiciário estaria prejudicada nessa história.
É preciso ver que a verdade é relativa ao ponto de vista dos interesses individuais e é justamente por isso que se faz necessário o debate para a constituição de um Contrato Social.
Não acho que tenha muita efetividade a ação da polícia combatendo o uso de maconha nem dentro da USP e nem em qualquer outro lugar.
Estamos mesmo reféns do que por falta de força discursiva podemos chamar de senso comum. Esse que é fomentado pela tradição patriarcalista, pelos valores judaicos-cristãos e por um familiar reclame que nos faz comungar "ordem e progresso".

O Estado se ausenta de suas responsabilidades por políticas sociais e o conjunto de estudantes corre o risco de cair numa visão clientelista da Universidade ao crer que o funcionamento da USP deve contemplar simplesmente a manutenção das atividades acadêmicas e os serviços necessários para que as últimas continuem. Ser estudante não é simplesmente ir e voltar das aulas e conseguir um diploma ao longo de um período letivo e uma universidade não é unicamente um local em que se aprende uma profissão.

Penso em um projeto de universidade pública que permita o acesso das camadas populares ao ensino de qualidade que lhe foi negado durante séculos de exclusão e miséria. E quem duvida dessas "máximas" que faça uma visita a uma favela num grande centro urbano pra perceber quantos ali são negros e quantos tem real possibilidade de constituir uma vida digna.

Apelos à parte, não sou filiado a nenhum partido, a nenhuma agremiação política, enfim, não sou um estudante organizado em qualquer movimento coletivo. Não sou um militante. Não tenho religião.

Acredito num debate inteligente para as questões humanas que contemple a conjuntura dos fatos presentes. A Universidade que quero ajudar a construir é aberta para formar um conhecimento real para a emancipação do homem e para proporcionar ao ser humano uma vida mais digna e feliz, alguns motivos básicos para a existência da Pedagogia.

Polícia Militar no campus não implica necessariamente segurança e tolhe o movimento estudantil, seja ele qual for. Se você tem dúvidas quanto a essa constatação em nosso país ligue o noticiário e assista como os governos europeus respondem as manifestações populares por direitos sociais. Polícia é uma instituição repressora do Estado em suas origens. Se legalmente a PM pode entrar na USP não precisamos de uma ronda diária de militares para garantir nossa segurança. Precisamos sim de uma política de segurança com debate e constituição de uma guarda especializada por meio de investimento do Estado.
Não podemos admitir uma gestão anti-democrática de um reitor que não representa a escolha da comunidade da USP nem tampouco um movimento estudantil "anacrônico e descolado das necessidades reais dos alunos dessa instituição". Devemos disputar um projeto de universidade tendo em vista um projeto de sociedade e isso começa com a lenta crítica e transformação de nossos valores. Cabe a nós decidir o que é fundamental para a discussão atual e congregar pessoas com o fim de fazer valer as intenções de todos que buscam a justiça possível.

Não sou marxista, não me considero anarquista nem tampouco liberal ou neoliberal e acredito que a arte é a única solução realmente possível para o homem. Nossos corações ainda são a alma da luta possível. E que antes de louvar a razão possamos saber o quanto esta está submetida a nossas mais íntimas paixões. Assim, humildemente podemos ver a aurora possível na afirmação de uma nova glória diária.

Permaneço compartilhando alguma resistência, algum espírito de liberdade, algum sopro de deslocamento do autoritarismo para a força coletiva. E quanto a isso, meus amigos, apesar de não acreditar em polarizações num mundo em que a ruptura impera e as tradições se diluem, gostaria de dizer com um sorriso no rosto, com orgulho e sem nenhum constrangimento que contraditoriamente sou de ESQUERDA.

Sei que meu discurso é um paradoxo, mas você sabe do que estou falando, entendeu o que quis dizer. Não são somente questões de linguagem. O mundo que podemos criar é para além do que pode ser dito.

Não tenhamos medo, já chegamos até aqui.


Mateus Moisés
Pedagogia - FEUSP